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Resenha: Razões para ler O livreiro de Cabul de Asne Seierstad

A obra é um relato do período em que a jornalista norueguesa e autora do livro, Asne Seierstad, ficou hospedada na casa de uma família tipicamente afegã, logo depois de ter feito a cobertura jornalística da guerra que marcou o fim do regime talibã no Afeganistão. De acordo com a própria autora, a ideia foi de relatar o cotidiano dos civis daquele país, conhecido no resto do mundo, principalmente, pelas histórias de conflito entre grupos políticos e religiosos. Apesar de pouco mais rica que a maioria das famílias da região, a jornalista julgou que o dia a dia da família do livreiro, a quem ela dá o nome fictício de Sultan Khan, retrata de forma fiel os aspectos culturais de uma sociedade marcada por costumes religiosos rígidos e tão diferentes dos encontrados no ocidente.

O livro de pouco mais de 300 páginas é dividido em 20 capítulos, incluindo o prefácio, onde a autora conta as circunstâncias em que conheceu o livreiro, título da obra, e os motivos que a levaram a desejar acompanhar a rotina de sua família para escrever um livro, e o epílogo, em que ela relata os rumos que as vidas dos seus 14 personagens tomaram depois que ela deixou o convívio da família.

Cada capítulo é dedicado a um dos parentes de Sultan Khan. Neles Seierstad conta algum fato que caracterize aquele personagem e por meio desses relatos revela a realidade vivida por vários afegãos como aqueles, além de aspectos da vida cotidiana da sociedade local de forma geral. O livro, apesar de ser escrito em formato literário, trata-se de uma grande reportagem composta pelos depoimentos dos membros da família Khan e fatos observados e vividos pela jornalista durante o tempo em que residiu no Afeganistão.

Depois de contar no prefácio como conheceu o livreiro e foi autorizada a morar em sua casa, Seierstad situa o leitor contando um pouco da história do homem que a motivou a escrever o livro. A trajetória profissional e pessoal do livreiro e de sua esposa até o dia em que a autora os conheceu é contada nos primeiros capítulos como uma forma de contextualização para os fatos que serão narrados posteriormente.  Nesta etapa ela apresenta os membros que compõem a família e faz um apanhado de alguns fatos que levaram a família à atual situação em que se encontravam no período em que o livro foi escrito.

Durante todo o decorrer dos relatos, a história particular da família se mistura a história e costumes do país em que eles vivem. A autora mescla informações obtidas através de pesquisa sobre o Afeganistão às informações obtidas por meio das entrevistas e do convivo com a família. Ao contar, por exemplo, que Sultan Khan tem duas esposas, como os dois casamentos ocorreram e como é a convivência entre elas, Seierstad revela ao leitor aspectos da cultura local. Os costumes da religião muçulmana, predominante no país, também são relatados quando a autora fala sobre como é usar a burca (traje feminino que cobre a mulher completamente, sem deixar à mostra nenhuma parte de seu corpo) e em quais circunstâncias a vestimenta passou a ser obrigatória no país.

Ao mesmo tempo em que instiga a curiosidade do leitor ocidental para desvendar os mistérios de uma cultura completamente diferente da sua, o livro de Seierstad indigna quem o lê, principalmente, quando descreve a realidade das mulheres do país. Mesmo tentando manter a imparcialidade inerente ao jornalismo, a autora deixa escapar um tom tendenciosamente feminino quando relata as histórias de vida da mãe, esposas, filhas e irmãs de Sultan Khan.
A redação da autora, que exclui de todos os ambientes e cenas sua própria imagem, dá a impressão de se tratar de uma obra de ficção e por vezes chega a confundir o leitor. A técnica imprime à obra uma leitura leve e agradável, uma espécie de contra ponto aos relatos de uma história repleta de injustiças e fatos tristes.

Antes mesmo de ser indicado à jornalistas, por se tratar de um livro-reportagem e conter uma narração muito bem estruturada, a obra é indicada ao público em geral. Pessoas que procuram uma leitura que vá proporcionar algumas horas de lazer e informação a respeito de uma cultura diferente daquela a que estamos habituados. Além disso, o livro fornece informação para quem quer entender e conhecer os costumes de um povo, que depois dos recentes ataques terroristas que o mundo presenciou, ganhou uma imagem caricaturada pela mídia em geral.

Asne Seierstad é uma jornalista norueguesa correspondente de guerra desde 1994. Já cobriu diversos confrontos, entre eles a invasão ao Afeganistão e a guerra do Iraque em 2003. Foi vencedora dos prêmios Free Speech Award, em 2002, e do Grande Prêmio Norueguês de Jornalismo, em 2003. Além de O livreiro de Cabul, já publicou as obras: 101 dias em Bagdá, De costas para o mundo e Crianças de Grozni, todos livros-reportagens baseados em suas experiências profissionais.

Por Laura Nabuco

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